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Em tempos de isolamento social, como fica a alfabetização das crianças?

por | 22 / maio / 20 | Giro TE, Mesa Educacional

Apesar das preocupações das famílias, especialistas acreditam que o momento vai apresentar novas formas de aprender e interagir entre a comunidade escolar, o que pode ser inclusive positivo

A alfabetização é uma das fases mais importante do desenvolvimento da criança e se inicia ainda na primeira infância. Entretanto, com a suspensão das aulas, diversos questionamentos começam a aparecer. Como fica a interrupção ou adiamento desse processo? Continuar a distância ou aguardar as aulas presenciais? 

Para a Doutora em Educação Maria Sílvia Bacila, Secretária Municipal da Educação de Curitiba, nem uma coisa e nem outra. “Não é preciso interromper ou adiar, é possível prosseguir. Aqui [em Curitiba] vamos continuar com as aulas a distância porque esta é a situação que nós temos hoje com os recursos que podemos usar e, claro, vamos aguardar as aulas presenciais que são insubstituíveis. Mas não concordo com a ausência da presença da escola nesse momento”, pontua a Secretária.

Já sobre quais são as estratégias que as escolas e os pais devem adotar para minimizar os impactos da suspensão das aulas no processo de alfabetização, a Doutora em Estudos Linguísticos Angela Mari Gusso apresenta dois ângulos.  

“Se nós pensarmos que a escola é o lugar que tem o compromisso de assegurar à criança o acesso a escrita, nós vamos pensar que a criança está perdendo porque, afinal, é na escola que estão os profissionais preparados para trabalhar com esse processo. Mas, por outro lado, se nós pensarmos que vivemos rodeados pela escrita e para aquelas crianças que já iniciaram a alfabetização, mesmo longe da escola ela começa a observar, mesmo que intuitivamente, o que está acontecendo”, explica Angela.

Para ela, se a criança tiver o apoio dos professores com aulas remotas, somado a mediação dos familiares chamando a atenção dela para o objeto escrita, ela continuará tendo desenvolvimento. “O que vai acontecer é que algumas crianças no processo de aquisição seguem ritmos diferentes, caminhos também distintos e isso acontece mesmo na sala de aula. Os alunos apresentam individualidades, se relacionam de forma diferente com a escrita, e isso é normal”, completa.

Alfabetização: mais que ler e escrever

Alfabetizar é um processo desafiador porque para além de ler, escrever e contar números, o papel do profissional que trabalha com alfabetização está nas nuances que permitem que essa criança tenha a capacidade de interpretar, compreender, criticar, resignificar e produzir o conhecimento.

Sabe-se também que a integração entre os colegas, o trabalho colaborativo, as brincadeiras, a musicalidade, as artes e diversas outras atividades são utilizadas para enriquecer e direcionar o período da alfabetização. “As crianças aprendem juntas, umas com as outras, por isso a interação é extremamente importante, com a escrita não é diferente, ela é descoberta com seus pares e, talvez aqui, esteja o maior desafio”, conta Angela.

O desafio de manter o processo de alfabetização em tempos de pandemia.

 

Por isso, quando se pensa na amplitude e na responsabilidade da alfabetização, entende-se que colocá-la em prática em tempos de pandemia potencializa a sua complexidade, afinal para absorver todas essas capacidades é preciso acompanhamento próximo, interação entre professor-criança e criança-criança. Portanto, alfabetizar nesse momento, em que há suspensão de aulas em todo o território nacional é, talvez, o maior desafio vivido por profissionais da educação nos últimos tempos.

“Se pensarmos em alfabetização no sentido amplo enquanto a apropriação do sistema de escrita, do sistema alfabético, nós temos um lado para considerar, o lado que depende de uma mediação e de um trabalho mais sistematizado. Que é conhecer o alfabeto, relacionar as letras, os sons, saber a direção da escrita, saber grafar as letras e isso é algo muito complexo que depende de um trabalho planejado”

Por outro lado, Angela destaca que saber ler e escrever é mais do que dominar o sistema gráfico,  é ler e compreender, saber produzir textos adequados a cada situação. “Por essa perspectiva esse período fora da escola pode permitir que a criança desenvolva o letramento de outras formas e na volta das aulas presenciais caberá ao professor fazer uma avaliação diagnóstica e perceber exatamente como cada um dos alunos está lidando com esse objeto e isso não é muito diferente do que a gente precisa fazer no início de cada ano escolar”, completa.

“A escola precisa transformar as pessoas em sujeitos letrados, aquele que lê de diferentes modos para diferentes objetivos, que lê diferentes gêneros textuais com competência e que também saibam escrever adequando o seu dizer a cada situação”.

Doutora Angela Mari Gusso

 

A participação dos pais: antes, durante e após a pandemia

Independente do distanciamento social, a participação dos pais em toda vida escolar dos filhos sempre se fez importante, no processo de alfabetização não é diferente. Na verdade ela se faz ainda mais essencial, já que a criança precisa receber estímulos e acompanhamento.

Por isso, durante esse período de suspensão das aulas, é fundamental que as atividades educativas, mesmo que informais, continuem acontecendo dentro de casa para que as crianças continuem aprendendo.

“Este tempo em  casa também permitirá que as crianças potencializem outras dimensões do desenvolvimento infantil e traz ganhos cognitivos, afetivos e de sociabilidade  importantes”.

Doutora Angela Mari Gusso

Angela exemplifica que é possível trabalhar a escrita com textos do cotidiano. “Um bilhete para avó, a lista do supermercado, o cardápio da semana…brinque de escrever mesmo que a criança não domine ainda todo o sistema. É nessa hora que você proporciona condições para que ela perceba como a escrita funciona”, sugere.

Outro ponto de destaque para a doutora é que os pais sejam leitores de textos para seus filhos. “Nesse momento se faz pelo menos duas coisas importantes. O primeiro pelo ponto de vista da afetividade que para a criança é muito significativo. Para ela é prazeroso ouvir o pai, a mãe, o tio, a madrinha lerem histórias. O segundo é que ela passa a incorporar as características da escrita porque internaliza as características do gênero, as especificidades de cada texto, afinal escrever não é por a fala no papel. A estrutura de uma história contada é de um jeito, uma história lida é de outro, então a leitura é fundamental”, incentiva.

Os pais também podem ajudar na sistematização da auto alfabetização por meio de jogos. “Bingo de letras, dominó de letras, de sílabas, boliche, caça-palavras..são atividades lúdicas, prazerosas e que qualquer pessoa da família pode fazer”, sugere Angela.

 “A literatura é o melhor caminho para a alfabetização e isso com certeza pode e (deve) ser feito em casa. Aproxime as crianças das histórias de ficção contadas e lidas, deixe as crianças manusearem os livros e contar suas histórias a partir das imagens que veem”

Doutora Angela Mari Gusso

A alfabetização é uma das fases mais importantes da educação, como ela fica com a suspensão das aulas?

 

Já a Doutora Maria Sílvia faz um apelo para que os pais respeitem o registro da criança. “Percebemos, inclusive muitas pesquisas apresentar, que há nos pais muita ansiedade no período de alfabetização. Os pais ficam cheio de interrogações sobre porque a criança registra determinadas palavras de certa forma, de maneira errada. É preciso que os pais não se afobem, não criem fantasias, isso faz parte e é perfeitamente normal que seja desta forma”, orienta.

 

Diretrizes da CNE para os primeiros níveis de ensino

Para orientar as escolas durante o período de distanciamento social, o Conselho Nacional da Educação (CNE) aprovou no final de abril diretrizes que regem desde a Educação Infantil ao Ensino Superior.  Confira as recomendações da CNE para os anos iniciais: 

Educação Infantil – A orientação para creche e pré-escola é que os gestores busquem uma aproximação virtual dos professores com as famílias, de modo a estreitar vínculos e fazer sugestões de atividades às crianças e aos pais e responsáveis. As soluções propostas pelas escolas e redes de ensino devem considerar que as crianças pequenas aprendem e se desenvolvem brincando prioritariamente.

Ensino Fundamental Anos Iniciais – Sugere-se que as redes de ensino e escolas orientem as famílias com roteiros práticos e estruturados para acompanharem a resolução de atividades pelas crianças. No entanto, as soluções propostas pelas redes não devem pressupor que os pais e responsáveis substituam a atividade do professor. As atividades não presenciais propostas devem delimitar o papel dos adultos que convivem com os alunos em casa e orientá-los a organizar uma rotina diária.

Para acessar o documento completo, com todas as diretrizes, você pode acessar aqui.

 

Prejuízos que a Covid-19 pode trazer para educação

“Se eu assumo um prejuízo nesse momento eu preciso admitir que a criança parou de aprender e ninguém para de aprender, ninguém desaprende. Se essa criança foi despertada para o processo de leitura ela não vai parar de aprender nesse momento em que nós estamos distantes”, observa a Secretária Municipal da Educação de Curitiba, Maria Sílvia.

A Secretária explica que em diferentes possibilidades as redes estão levando informações que mobilizem esse processo de aprendizado para que a criança continue estimulada a fazer as pesquisas com relação ao processo de leitura e de escrita no seu ambiente. 

“O letramento é condição para cidadania”

Doutora Angela Mari Gusso

“Quero trazer aqui o que Emilia Ferreiro* sempre colocou: a casa como ambiente alfabetizador. Nós sempre falamos desse lugar social da criança, só que da escola, dentro da sala de aula e agora, pela primeira vez em toda história da educação, a gente tem a criança nesse lugar para fazer a sua pesquisa de leitura, oralidade e de escrita”, observa

Por isso, Maria Sílvia afirma que esse momento vai produzir um rico material de pesquisa para a educação. “Não posso afirmar que o que teremos pela frente será prejuízo, vamos poder estudar todo esses registros que as crianças estão produzindo nos seus lares e que jamais nós tivemos antes porque as crianças não faziam isso dentro de casa, faziam isso na escola, sempre na escola. Portanto, não consigo entender que isso gera um prejuízo, pelo contrário”, ressalta.

“Não é um prejuízo, é um outro jeito de aprender, com outras fontes que não são as dadas pelo professor o tempo todo”

Doutora e SME Maria Sílvia Bacila

Para ela o grande desafio é como será trabalhado e aproveitado todo esse material no retorno da mediação presencial. “É claro que nenhuma tese e estudo escreveu sobre a formação do professor nesse tempo, mas nós vamos escrever, estamos escrevendo sobre com aproveitar essa produção das crianças nesse momento de distanciamento”, finaliza.

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* Emilia Beatriz María Ferreiro Schavi é uma psicóloga e pedagoga argentina, doutora pela Universidade de Genebra.

por | 22 / maio / 20 | Giro TE, Mesa Educacional