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Valorização da carreira docente, formação de base e continuada, infraestrutura das escolas: os abismos da educação brasileira

por | 07 / maio / 21 | Giro TE

Débora Garofalo e Ana Gabriela Simões Borges conversaram com a Tecnologia Educacional e traçaram um raio-x do sistema educacional do país

Valorização da carreira, formação de base e continuada dos docentes, infraestrutura, desigualdades sociais. Muitos são os fatores que refletem nos indicadores da educação no Brasil. Para compreender um pouco melhor esse cenário, a Tecnologia Educacional recebeu a mestrando em educação e finalista no Global Teacher Prize, o Nobel da educação, Débora Garofalo, e a superintendente do Instituto GRPCOM, doutoranda educação, tecnologias e formação de professores, Ana Gabriela Simões, para uma conversa exclusiva sobre o tema no Dia da Educação.

Para construir uma base cada vez mais sólida é preciso colocar a lente sobre os dados alarmantes apresentados pelo país e propor soluções para os principais dilemas que vive a educação.  “Primeiro é preciso classificar esse cenário que vivemos em dois: o externo e o interno. Se externamente o país tem fortes problemas socioeconômicos ligados principalmente a desigualdade que acarretam na falta de oportunidade de aprendizagem, de acesso ao ambiente escolar e que está sendo agravada nesse momento de pandemia, internamente as dificuldades dizem respeito a infraestrutura do sistema educacional como um todo: programas, repasses de verba, falta de professores nas unidades escolares, de saneamento básico, quadras esportivas, salas de leitura, mas principalmente de acesso à inovação”, destaca Garofalo.

 

“Soma-se a isso a falta de prestígio da carreira docente: em média, no Brasil, um profissional da educação que trabalha 40 horas semanais tem um salário de R$ 2 mil reais”

Débora Garofalo, mestranda em educação

 

LEIA TAMBÉM UM PANORAMA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL PANDÊMICO

 

Débora destaca que é preciso voltar um pouco no tempo para fazer uma análise estrutural. “Nós não vamos bem Matemática e nem proficiência da Língua Portuguesa. O Brasil é um dos últimos países nas avaliações e estamos muito aquém do que deveríamos estar. E isso diz muito sobre o  que realmente vem transmitindo esse ensino ao longo dos anos”.

 

QUAIS OS PROBLEMAS QUE O BRASIL PRECISARÁ ENFRENTAR NA EDUCAÇÃO?

Se nos últimos 30 anos o país vinha avançando, mesmo que lentamente nessa área, agora ele provavelmente irá retroceder. Para exemplificar esse cenário, Ana traz alguns dados para serem analisados:

  • Apenas 33% dos domicílios brasileiros tem um computador com internet.

 

“Ou seja, o que está acontecendo com todo o restante que não tem essa condição? E mesmo os que têm não significa que eles tenham uma internet de boa qualidade, que tenham mais de um computador que muitas vezes precisa ser dividido entre a família. Os problemas que podem acarretar são vários como a distorção da idade x série, a evasão escolar e muitos outros”, observa Ana.

  • Dos estudantes que concluem o Ensino Médio, apenas 9% têm o aprendizado considerado mínimo.

 

“A situação fica ainda pior quando fatíamos esses 9%. Dos 25% mais pobres, só 3% têm o índice adequado, enquanto entre os 25% mais ricos, 65% têm o índice adequado. É uma discrepância muito grande e esse momento pode piorá-la ainda mais”, alerta.

Débora acrescenta que as questões das desigualdades sociais resultam principalmente na evasão escolar, especialmente no Ensino Médio, onde os jovens acabam deixando as escolas porque precisam ajudar a completar a renda das famílias.

 

PESQUISA PROJETA DÉFICIT QUE O ISOLAMENTO SOCIAL PODE TER CAUSADO

 

“A pouca ou nenhuma escolarização dos responsáveis traz consequências para o processo educacional, principalmente por conta da valorização da educação. Muitos dos pais até prezam pela educação, mas diante dessa realidade, ainda acreditam que o trabalho vem em primeiro lugar, que é mais importante trabalhar do que estar na escola”, destaca.

Outro ponto de atenção trazido por Débora são as condições das crianças na zona rural, tanto pelo acesso à internet quanto ao trabalho. “Apesar dos dados demonstrarem uma redução do trabalho infantil, a prática acontece de uma maneira diferente já que por ser informal é difícil computar esses dados”, completa.

 

“Não tenho dúvidas que o Brasil enfrenta, neste momento, uma dificuldade de promover um ensino remoto que vai trazer sérias consequências para a educação do país.”

Débora Garofalo, mestranda em educação

 

Todas essas informações deixam nítido os problemas que precisam (e precisarão) ser enfrentados pelo sistema educacional. “Os prejuízos de ficar fora da escola e de não ter acesso ao ensino remoto, híbrido ou presencial, além dos danos sociais e emocionais, deve trazer um aumento nos índices de analfabetismo, das desigualdades por diferentes condições de acesso à educação, evasão escolar e um apagão da mão de obra”, avisa Ana.

 

CARREIRA DOCENTE E FORMAÇÃO

“Por muito tempo essa carreira foi considerada um fator de prestígio, mas a inversão dos homens nessa profissão e a desqualificação dessa profissão muito arreigada ao fato da mulher poder ensinar, iniciou a desvalorização da profissão. Com o passar do tempo esse cenário foi se agravando cada vez mais. Somos formados, preparados… muitos profissionais da educação que estão em sala de aula possuem mestrado, doutorado, coisa que muito político não tem e mesmo assim a gente vê uma desvalorização”, conta Débora.

Portanto, a desvalorização do trabalho do professor é o primeiro ponto apresentado pelas especialistas durante a conversa. Para corrigir essas lacunas, Débora acredita que é necessária uma reforma na carreira do professor a nível nacional para haver uma fomentação da docência.

O segundo alerta vai para reformas iniciais na formação dos docentes dentro das faculdades que, de acordo com Ana, também precisam ser feitas. “Muitos não se sentem preparados para enfrentar a sala de aula e percebemos isso diante do desejo desses profissionais abandonarem a sala de aula. É preciso dar aos acadêmicos acesso a diversos fatores que futuramente eu virão a trabalhar”, enfatiza.

 

“Países que tiveram êxito na educação só o tiveram porque investiram na valorização da carreira docente.”

Débora Garofalo, mestranda em educação

 

A formação continuada também é uma necessidade latente. Para entender melhor essa carência a pesquisa sobre Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) Educação 2019, apontou que apenas 33% dos professores que lecionam em escolas urbanas participaram de algum curso de formação continuada sobre computador e internet. “Isso mostra que o professor vai sendo atropelado e a agora ainda foi lançado para as telas. Existe uma falha que a gente sempre previu, mas não via acontecer e agora ela está aí: a educação vai ser cada vez mais tecnológica”, atenta.

 

 

Somado a essas dificuldades, estima-se que 12,5% dos professores sofrem agressão verbal ou intimidação em sala de aula que também contribuem para as questões ocorridas no processo educacional. 

“O primeiro ponto que não podemos esquecer é que o professor é o protagonista no processo de aprendizagem e nessa pandemia isso ficou muito claro. Uma pesquisa recente no estado de São Paulo, mostrou a importância do processo de aprendizado ocorrido, principalmente, dentro da sala de aula dentro do formato presencial, já o afastamento dos alunos provocou uma regressão de pelo menos duas casas no desenvolvimento desses estudantes. Isso comprova a importância do professor em sala de aula”, lembra Débora.

 

“Acredito que depois da pandemia, vivenciando tudo que estamos vivenciando, que a gente tenha uma grande reviravolta na carreira do professor.”

Ana Gabriela, doutoranda em educação

 

“Vale destacar que não é só sobre preparar o professor para a tecnologia. Os estudantes estão super expostos a internet e aos perigos dela, a gente precisa fazer uma reflexão até pelo tempo de exposição dos alunos às telas. Nosso dever é prepará-los para se protegerem, para ter uma reflexão maior sobre os conteúdos que eles vão consumir naquele universo de possibilidades. É necessário ensinar os alunos sobre alfabetização midiática e  curadoria de notícias e informações, essa é uma necessidade que a escola precisa acompanhar”, reforça Ana.

 

INFRAESTRUTURA DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO

Débora e Ana concordam sobre a necessidade urgente da valorização da carreira docente e sobre os aspectos da formação, mas reforçam que sem a infraestrutura necessária é pouco provável que essas mudanças aconteçam.

“Ainda temos muitas escolas sem a infraestrutura mínima necessária. E não estou falando nem de computador, isso é um sonho perto de realidades de instituições de ensino que não tem  biblioteca, quadra, banheiro. Sim, acredite, tem escola que não tem banheiro”, lamenta Ana.

Ela reforça portanto que não basta dar toda formação do mundo aos professores se não forem dadas as condições para colocá-la em prática. “Tem professor que precisa levar o seu próprio celular e deixar passando de mão em mão para a turma inteira visualizar o que ele quer explicar. Ou levar o seu notebook, conectar na internet do seu celular para projetar para a sala”, constata.

 

“Conectividade não é artigo de luxo, ela é necessária tanto para professores quanto para estudantes.”

Ana Gabriela, doutoranda em educação

 

TECNOLOGIA E PERSONALIZAÇÃO PARA GARANTIR A EQUIDADE NA EDUCAÇÃO

 

“É fundamental que a gente olhe para traz e não cometa os mesmo erros, como, por exemplo, os cortes que temos visto na educação.É justamente o contrário, esse é o momento de investir enquanto país na educação”, disse Débora.

 

QUAL CAMINHO A EDUCAÇÃO DEVE SEGUIR?

“Estamos em um momento de rever metodologias, estratégias, de experimentar coisas novas, de refletir sobre ensinar aquilo que realmente importa, ensinar com mais significado, ensinar aquilo que faça diferença para a vida”, incentiva Ana.

Ela chama atenção para o ensino híbrido e como ele vem sendo trabalhado. “Não é apenas sobre estudar um pouco em casa, um pouco na escola. Não é só mesclar, é misturar. Vem de  blended que significa mistura: misturar games, misturar estratégias, misturar novos métodos como a própria gamificação que é muito legal, especialmente para a Matemática.”

 

MODELOS DE AULAS HÍBRIDAS É A APOSTA PARA A RETOMADA DAS ATIVIDADES ESCOLARES

 

A doutoranda em educação destaca que hoje as regras rígidas, os currículos engessados, conteudistas, a burocracia, vão tirar do professor a liberdade e as possibilidades de inovar. “Entretanto, é preciso que a gente se adapte às novas linguagens e digo isso não só pela escola, mas para a vida. Quer um exemplo? Você já tentou fazer alguma coisa num banco? O atendente, mesmo com você na frente dele, vai mandar você fazer tudo pelo aplicativo. Ou seja, não tem mais como fugir”, acrescenta.

 

“Quando se pede a um professor para mudar o seu método, não se pede apenas que ele mude de técnica, pede-se para que ele próprio mude.”

François Dubet, filósofo e sociólogo

 

Ana comenta das dificuldades que é promover essa mudança. “É preciso assumir que não somos mais os únicos detentores do conhecimento, que ele está totalmente fora dos muros da escola. Que o aluno ‘dá um google’ e recebe um milhão de informações para uma pergunta. Entretanto, é preciso que esse estudante saiba fazer uma boa curadoria diante de tantas possibilidades”.

 

TENDÊNCIAS EDUCACIONAIS QUE SE CONSOLIDARAM

 

Para ela, o caminho da educação deve girar em torno de uma educação que faça mais sentido para a vida do aluno. “Se a gente pode buscar conhecimento em todos os lugares, a necessidade é trazer essa autonomia para o estudante para que ele possa fazer melhores buscas, as melhores escolhas e saiba lidar com esse fluxo de informações que é assustador. Precisamos de um bom diagnóstico educacional para se adaptar às novas linguagens, nos aproximando e nos tornando mais inclusivos”.

 

“Estamos arcaicos. Dizem se uma pessoa dormisse um século e acordasse 100 anos depois a única coisa que não teria mudado, que estaria igualzinha, é a sala de aula.”

Ana Gabriela, doutoranda em educação

 

Débora complementa dizendo que é preciso buscar uma educação mais integral, pautada em valores integrais onde se possa considerar o estudante de maneira individual, respeitando o seu processo de aprendizagem e tratá-lo de uma forma diferenciada, trazendo equidade, mas principalmente qualidade para dentro das nossas escolas. 

 

PERSONALIZAÇÃO DO ENSINO PARA UMA EDUCAÇÃO IGUALITÁRIA

 

“Se antes o professor era aquele que apenas transmitia o conhecimento sem a preocupação de envolver os alunos, hoje podemos nos apropriar de vertentes muito ricas para se fazer esse tipo de trabalho como: cultura maker, programação e robótica, que comprovadamente auxiliam nesta aprendizagem que traz significado. E mais que isso: fazem os estudantes criarem, exercitam o raciocínio lógico e permitem que eles vejam como as coisas funcionam de maneira prática”, incentiva.

“A Educação 4.0 advinda desses novos tempos com a Revolução Industrial abriu possibilidades para que a gente trabalhasse de maneira diferenciada e principalmente na essência da Língua Portuguesa e da Matemática, elas precisam ser trabalhadas de maneira concreta, que conversem e dialoguem com a realidade dos estudantes.”

Débora Garofalo, mestranda em educação

 

EDUCAÇÃO 4.0: MAIS QUE UM CONCEITO A PRÓPRIA REALIDADE

 

“Meu sonho um dia é ler no jornal que o Brasil eliminou o analfabetismo, que Brasil tem as taxas de avaliações mais altas do mundo. É isso que queremos ver! Temos professores comprometidos, pessoas que querem fazer a diferença na educação, pessoas que fazem a diferença”, finaliza Ana.

 

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por | 07 / maio / 21 | Giro TE